Utilização inteligente de disciplinas a distância em cursos presenciais

18 maio, 2017

Já é comprovado que cada aluno possui um ritmo individual de aprendizagem.

*Artigo escrito por Gustavo Hoffmann para a Revista Linha Direta. A publicação original pode ser acessada neste link.

Por exemplo, um aluno pode ter muita dificuldade para aprender física e facilidade para aprender língua portuguesa, enquanto seu colega pode ter muita dificuldade para aprender língua portuguesa e facilidade para aprender física. Está comprovado também que esses dois alunos têm plenas condições de atingir o nível máximo de complexidade desses dois conteúdos. A diferença é que o primeiro precisará de mais tempo para aprender física, e o segundo precisará de mais tempo para aprender língua portuguesa. Afinal, cada um possui um ritmo individual de aprendizagem, que varia de acordo com o conteúdo.

No modelo presencial tradicional, em que o professor tem como principal objetivo a oferta de conteúdo e os alunos são agentes passivos do processo, um mesmo ritmo de ensino é imposto para todos, desrespeitando as individualidades inerentes ao processo de aprendizagem. Nosso modelo educacional presencial fixa o tempo que cada estudante tem para aprender e flexibiliza a aprendizagem. Isso é visto em todas as IES do Brasil, em todos os cursos.

As matrizes curriculares são divididas em semestres, que são divididos em disciplinas, cada uma com uma determinada carga horária. Se uma disciplina possui 80 horas, o aluno terá 80 horas-aula para aprender um determinado conteúdo. Alguns aprenderão quase tudo, alguns quase nada, a maioria fica próxima à média, mas quem obtém um desempenho superior a 60%, na maioria dos casos, é aprovado. Isso significa que um aluno que deixou de aprender 40% do que está previsto em um conteúdo programático é aprovado. O tempo para a aprendizagem é extremamente rígido, mas o tanto que cada aluno aprende é muito flexível.

A lógica está invertida!

Deveríamos garantir a aprendizagem e flexibilizar o tempo que o aluno leva para atingi-la, já que cada um possui um ritmo único. Em outras palavras, estamos ensinando de uma forma que os estudantes não aprendem. Acabam aprendendo algo, dada a enorme carga horária à qual são submetidos, mas o modelo presencial tradicional não é o mais eficiente quando se trata de aprendizagem.

Quando trabalhamos com a modalidade a distância ou semipresencial, a oferta do conteúdo se dá em um Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), permitindo que o aluno acesse o conteúdo disponibilizado em vários formatos (videoaulas, telas interativas, games, textos, entre outros), a qualquer hora, em qualquer lugar. Essa flexibilidade faz com que um aluno que tenha maior dificuldade na assimilação de determinado conceito dedique a ele mais horas de estudo, enquanto um aluno que tenha mais facilidade pode se dedicar menos tempo. A oferta de conteúdo em um AVA permite que o aluno estabeleça seu próprio ritmo de aprendizagem. Uma videoaula, por exemplo, pode ser acessada quantas vezes ele quiser ou precisar. Se não entender um determinado conceito, ele poderá voltar e assistir novamente a parte do vídeo ou a todo ele.

Ferramentas modernas permitem a interação síncrona ou assíncrona entre os colegas e entre alunos e professores. Objetos de aprendizagem modernos permitem que o acesso ao conteúdo se dê de forma lúdica. A utilização de recursos de gamificação, realidade aumentada, simuladores, entre outros, facilita muito o processo de aprendizagem. Enfim, se utilizados corretamente, os recursos da Educação a Distância podem ser mais efetivos do que boa parte dos recursos do ensino presencial.

Não acredito que a Educação a Distância seja melhor do que a presencial.
Nem que a presencial seja melhor.
Acredito muito na unificação desses dois modelos, que não deveriam ser tratados como modalidades distintas.

É muito provável que, em muito pouco tempo, tenhamos um modelo único de educação, que não será exclusivamente a distância nem exclusivamente presencial. Teremos um modelo híbrido (ou blended learning), com momentos presenciais facilitados por tecnologias da informação e comunicação que funcionam muito bem na EaD.

Muitos gestores entendem a necessidade de ofertar parte da carga horária dos cursos a distância, mas não sabem exatamente por onde começar ou qual modelo utilizar. Algumas IES ofertam 100% do conteúdo de algumas disciplinas no AVA e restringem os momentos presenciais à aplicação de provas. Outras preferem ofertar parte da carga horária das disciplinas na modalidade a distância, mantendo as aulas presenciais. Não ultrapassando 20% da carga horária total dos cursos reconhecidos, a IES pode adotar o modelo que quiser, e aí as possibilidades são infinitas.

Gostaria de apresentar aqui um modelo altamente eficiente de oferta das disciplinas a distância nos cursos presenciais. A eficiência se dá pela qualidade da oferta e, ao mesmo tempo, pela redução de custos que proporciona. Trata-se do modelo híbrido, com inversão da sala de aula (flipped & blended), ofertando parte do conteúdo da disciplina na modalidade online e outra parte presencialmente, com a aplicação de metodologias ativas de aprendizagem. Nesse modelo, tudo aquilo que diz respeito à oferta de conteúdo acontece online, no AVA, respeitando o ritmo individual de aprendizagem de cada aluno. Os momentos presenciais são utilizados para a aplicação desse conteúdo, através das metodologias ativas, tais como Problem Based Learning, Project Based Learning, Team Based Learning, Peer Instruction, entre outras. Na prática, os alunos comparecem aos momentos presenciais não para ter acesso ao conteúdo das aulas expositivas, mas para resolver problemas reais. Nesse modelo, a aula acontece em casa (ou seja, no AVA), e os momentos presenciais, na escola, são utilizados para a resolução de exercícios e problemas.

Isso promove uma inversão da sala de aula (flipped classroom). Os momentos presenciais podem representar desde 20% até 80% da carga horária de uma determinada disciplina ou de algum conteúdo do curso. Hoje, no grupo educacional do qual faço parte, mais de 70% dos alunos presenciais já são submetidos a esse modelo de oferta de disciplinas semipresenciais. Oferecemos 25% da carga horária presencial e o restante a distância. Temos excelentes resultados relacionados à satisfação dos alunos, ao desempenho acadêmico e à redução dos custos operacionais. Ou seja, estamos adotando um modelo mais eficiente, em que o estudante aprende mais, está mais satisfeito e que ainda gera uma economia importante para a instituição. A partir de 2016, replicaremos esse mesmo modelo para nossa plataforma de EaD, que está em fase final de credenciamento pelo MEC.

Para nós, não faz o menor sentido que o aluno vá até um dos nossos vinte polos presenciais para ter aulas expositivas com tutores, muito menos que utilize os polos para assistir a videoaulas, ou teleaulas. No nosso modelo, os momentos presenciais serão utilizados para a aplicação de metodologias ativas de aprendizagem. Acreditamos que o marco regulatório da EaD e o perfil dos nossos alunos, que são na maioria trabalhadores, com restrição de tempo para dedicação aos estudos, estabeleçam um cenário ideal para a aplicação dos conceitos de blended learning e flipped classroom.

Gustavo Hoffmann é Fellow pela universidade de Harvard LASPAU), onde estuda metodologias ativas de aprendizagem (Active Learning), ensino híbrido(Blended Learning) e sala de aula invertida(Flipped Classroom). É Diretor de Inovação e Internacionalização do Grupo Anima Educação. Foi Diretor Acadêmico e de EaD do Grupo Alis Educacional. Foi Diretor Acadêmico, Diretor de Pós-Graduação, Diretor de EaD e Diretor de Negócios da Kroton Educacional. É professor das universidades corporativas do SEMESP e da ABMES. Participa do projeto SAGAH (solução de conteúdo para EaD), em parceria com o Grupo A Educação. Faz parte do Comitê de Especialistas do Horizon Project – New Media Consortium e do Consórcio STHEM Brasil, que capacita professores para a utilização de metodologias ativas de aprendizagem. É articulista da Revista Linha Direta. Participou de programas de intercâmbio acadêmico emStanford, Harvard, MIT, Arizona State University e New York State University, entre outras.

Artigo originalmente publicado pela Revista Linha Direta


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